NOITE EM PARIS – DOCUMENTO

 

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 Assunto da Mensagem: Literatura – Noite Em Paris – El Carmo
MensagemEnviado: domingo dez 25, 2005 8:22 pm
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NOITE EM PARIS – CONTO – EL CARMO

Fazia um friozinho e chuviscava. Ele parara em frente ao Eléphant Blanc. Esperar. Logo estiará. Eram, talvez, duas horas, ou menos. Outras pessoas ali se encontravam. Esperavam silenciosas, a chuva passar. Um homem baixo, de careca luzidia, meio desdentado e de roupas modestas, parou em sua frente e de costas, coçando seus perigalhos, comentou sobre o tempo. Eterno tema das conversas dos que nada têm a dizer. Mecanicamente respondera àquele homem convicto, de que conversas passageiras não eram propícias para se iniciar uma amizade e isto era o que lhe interessava, pois sabia das dificuldades em se fazer amigos na França e mais ainda o quanto era difícil conservá-los. Como ser amigo de um clochard? De uma pessoa que não tinha morada e não se sabia onde procurá-la nas dificuldades? Não. Não era um clochard. Flanava, apenas, flanava. E se fosse, iria precisar de um clochard? Si.No. Não lhe interessavam suas porandubas, mas batera um papo. Era difícil encontrar alguém para papear. Sua vida transcorria em monólogos. Monólogos que saiam sem sons. Para que abrir a boca? Não havia ouvidos. aquele homem percebera o estrangeiro.Talvez, também ele, estrangeiro em sua terra. Não. Não era um árabe. Il n´etait pas un pied-noir. Non, il n´etait pas un mexicain, non plus. Il s´agit d´un brésilien. Du Brésil. Le carnaval de Rio. Disse ser do sul e talvez entendesse um pouco de português porque sabia algumas palavras do provençal, la langue d´oc. Orgulho nos olhos ridentes. Alguma semelhança entre o português e o provençal? Existe ainda falantes desta língua? Dela sabia apenas que tal qual o francês o u se pronuncia abrindo-se a boca para dizer u e ao contrário dizer i, saindo um som semelhante ao ü alemão. Acabava de aprender que bouche se diz boca como em português, une boca, ou bouco, uno bouco; Que nuit se escreve nuet, noite, e se pronuncia nué; dia não é jour mas jorn e se pronuncia dzur, pois o j e g se pronunciam dz; Ch se diz ts; Paraxítonas las palabras finitas em un, a, e,o, as, es, os. Saberá que Frederico Mistral, escrevendo em provençau, tornou respeitada a língua occitana. Dias virão em que lerá Miréio: “Cante uno chato de Prouvènço./ Dins lis amour de sa jouvènço”. “Canto uma jovem da Provença. E seu amor de juventude”. E lerá um dia a súplica dirigida ao rei René em 1474: Tres soveyran et tres haut prince, A la vostra sacrada real majestat, humilment et devota si expausa…”

Uma rajada de vento e água. O velho recuou tocando-o. No sexo. Entendeu tudo. Não era isto que estava procurando. Tinha estado em alguns bares. D´Alliance Française, onde estudava e lavava pratos fora ao Trait-d´Union. O primeiro trago. Ponto de partida para a noite. O velho Daniel dansava a bandeja em suas mãos. Estivera na Buate Grise. ouvir cantar Pernambuco. A bossa Nova. Ensaiara cantar: “guarda a rosa que te dei… O pianista negro, como sempre, reclamava da falta de ritmo. Mas tinha a compreensão e o carinho de Pernambuco. Bebera, bebera e bebera. Não lhe olhavam as loiras nem as morenas. Em vão. Tímido para a abordagem. Sòzinho mais difícil a conquista. Não era um pédé. Não. Ele não dissera isto. Queria apenas sucer sa bite. Não. Alí na rua, descaradamente assim? Qu´il n´y avait personne. Tous sont rentrés. L´Elephant Blanc fazia congé, nesta noite. Seus fregueses foram beber em outra freguesia o grogue reconfortador. Não, definitivamente, não. Iria voltar a seu quarto. Seu runcó. Subiria os sete vãos de escada do 16 rue d´Assas. Dormindo estaria Madame Zurflux e seu fiel kiki. Dormindo estaria Mademoiselle Zurflux. E Concepción, a solícita ménagère. La concierge botaria os olhos para ver quem estava entrando. Nunca dormem as concierges. Poria um disco na vitrola. Aquela que lhe presenteara a namorada, dedicada esposa do italiano. Lembraria o dia em que a conhecera ao comprar-lhe amendoim na avenida Saint Michel. Est-ce-que vous jouez de la guitarre? Por acaso tocava, sim, violão. Claro, dar-lhe-ia aulas de violão. Talvez não tocasse tão bem, não fosse capaz de tocar-lhe o Concerto de Aranjuez. Ou Igualar Turíbio Santos num Estudo de Villa-Lobos. São Turibio, não o de Mongrovejo, apóstolo de Peru. O do violão, admirado e louvado em todo mundo. Saberia, planger as primeiras notas.

Sim, subiria ao seu quarto. Tomaria um copo de Porto. Esquentar o frio. Deitar-se-ia ouvindo tranquilamente Mozart. O Divertimento em ré maior, K334, do poeta que em l779, na velha Salzburg, num rasgo de inspiração, compôs para o deleite da posteridade. Era cedo. Ainda não passara o leiteiro. Dormiria um pouco e voltaria à rua. Buscar sua cota de leite na mercearia. Não. Não era um clope. Não era um ladrão. Mercúrio sabe disso. Fazia sua redistribuição da riqueza. Os francêses entregam o leite nas padarias e mercearias na madrugada. Como nas residências, deixavam os pacotes empilhados em frente à porta. Pegava sua parte todas noites. Era preciso comer. Em seu quarto lhe esperavam a baguete e a manteiga, esta, surripiada no marché à cotê. Não tremer como lhe dizia o amigo Luiz. Se tremer o francês vê, como quase viu no dia em que roubaram chocolate no mercado. Ou no dia em que te pegaram roubando um livro de Pierre George. A mão do segurança sobre teu ombro. Não. Não tinha esquecido nada. A prova do furto. O livro sob o capote. O caminho para delegacia. O caminho para seu quarto. Os gritos dos policiais. Polícia, igual em todo mundo. Como bem disse Maradona, imbecis, há em toda parte. Não mataram Sacco e Vanzetti? O medo da deportação. A volta, a vergonha, vencido. Por-lhe-iam num barco de terceira. A viagem, a náusea e a chegada. O vômito voando sobre si, caindo no mar profundo, pede vênia velha senhora. Me desculpe, lhe desculpa. Vomitar também vomita sobre o azulmarchando Canal. Dom Quixote não mancha, de la Mancha. Que perguntas que tu fazes, que perguntas tu lhe fazes Paris? Saudades das luzes de Paris. O bulício de seus bares. Iniciação e sofrido aprendizado. O fumo, o vinho e a cerveja. Ah, a cerveja. Lhe fez lembrar Chico de Anjo chegando do Paraná n´Aroeira. Desce mais uma cerveja, João. E tome-lhe cerveja quente, porque não existia geladeira. E as mulheres que nunca tinham provado uma cerveja. Virge que bicha marguenta. Parece mijo. Crendeuspade. Un demi. Un panaché. Diziam os franceses e saboreavam-na como um maná. As discussões. Cinema, teatro e literatura. E política e política e política. Daria tempo de avisar a Chantal? Darger-lhe-ia o violão e o berimbau. Um regalo. Devolveria a radiola a Louise. Que brigasse o italiano bigodudo quarantene. De bigode entendia desde os tempos do Vieira. Bigodinho, professor de matemática, não assustava ninguém. Só padre Hugo, com suas equações, infringia terror à turma apavorada. A máquina de escrever, deixaria para Novelli, se Alberto Sergio não a tivesse comprado. Que deixasse os pincéis por um momento. Escrever um poema. Os livros de política para o Ortega. Fazer a revolução na sua Nicarágua. Não esquecer. Poesia e teatro para o David, o neozelandês. Perdoá-lhe-ia por não lhe ter apresentado a petite allemande? Como foi infantil no dia em que comeram moules juntos e foram parar em Fontainebleau, ainda moles do vinho quando poderia simplesmente parar nacama com ela. La petite allemande. Não sabia de vero que David se referia a ela. Perdoá-lhe-ia o neozelandês? Também ele nada fizera. Ficou na garganta o desejo. Dupla timidez ou tripla. Nem ele, nem ela, nem eu. De cinema os livros para Iushiro. O zapon agradece. Sentia. Sentia muito. Quando iria rever seus amigos? Seu berimbau. Talvez o único existente em toda Paris. Quanto deve a seu berimbau. O toque n´A feijoada de Madame Faure e o toque em Brigitte Bardot. Brigitte Bardot, Bardot. Brigitte beijou, beijou. Lá dentro do cinema todo mundo se afobou. Seus passos, sua dança e sua amizade. Ensina-me dançar o samba, ouvi de sua voz. Je veux samba, Je veux samba, oui,oui,oui,oui,oui. Brigitte a bela marvada que despedaçava corações em todo o mundo. Bastava ver uma foto sua, um filme onde as linhas ondulantes se mostravam mais sinuosas qual um rio preguiçoso ondeando no vale sem fim. Ele não sabia que um dia Brigitte iria lançar seus dardos contra imigrantes, negros, mestiços e mulçumanos. Que seu furor pela defesa dos animais era um disfarce para esconder sua xenofobia e seu desprezo pelo ser humano. Que um dia ela iria se preocupar mais pela sorte dos cachorros no Egito do que pela morte de pessoas na Palestina. Lembrou-se de seu berimbau, seu gunga. Como o amava e as cantigas ensinadas por seu mestre Canjiquinha. Esse Gunga é meu, eu não dou a ninguém. Esse gunga é meu. Foi meu Deus que me deu. Esse gunga é meu. Panha laranja no chão tico-tico. Adeus, adeus, boa viagem, eu vou m´bora, boa viagem. Seu berimbau, seus toques. São Bento Grande, São Bento Pequeno, Angola, Angolinha e Samango. Seu Berimbau, seu abre-te sésamo. Se ele estivesse ali. O delegado. O encanto da serpente. Os gritos dos policiais. Como pode? Um estudante de direito, ladrão, como pode? As lágrimas, não, de crocodilo, veramente lhe corriam. Não fora educado para o mundo, o mundo de aparências, mas d´essências. É muito mal, pois não aprendeu a regra do jogo, não ganhou régua e compasso. E sofre quando outros riem e gosam, gosam e riem. Seu pleito primeiro puxa a pena e o perdão policial. Vence a emoção, cala a razão, mas será sempre assim? Prejudicada quase a prova de Pierre George. Caro professor, se tu soubesses o quanto é duro nascer no Nordeste Brasileiro. Inventam os gregos a tragédia que o nordeste vive agora. Sant´Esquilo. São Sófocles. Sant´Eurípedes. Orai por nós que recorremos a vós. Não. Sê firme. E viverás. El Carmo.

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MensagemEnviado: domingo dez 25, 2005 8:28 pm
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Sou brasileiro e moro em Salvador-Bahia. Sou admirador da cultura africana e gostaria que se abrisse uma discussão sobre a literatura africana e sobretudo caboverdiana. Me encanta, sobremodo, o linguajar de cada povo. É muito enriquecedor e muito lindo. Feliz Ano Novo a todos. El carmo.

El Carmo

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